Innerspeakin

AVISO

Há meses não posto e até então não havia me justificado. Lá vai:

Devido à falta de tempo decorrente do terceiro ano, eu parei de postar resenhas por ser algo que arranca bastante tempo. Decidi, então, criar um blog que demanda menos tempo, pelo menos até eu passar no vestibular.

Nele, denominado Cochell, eu posto um vídeo de uma música - preferencialmente ao vivo e de uma banda um pouco menos renomada -, comento breve e mais informalmente sobre a canção. Algo bem mais rapidinho, direto e pá. 

Lá vai o link: http://cochell.tumblr.com/

Obrigado desde então,

Matheus Azevedo.

The Bellrays

“Black Lightning”, The Bellrays.

Incrível é a eficiência da mídia e das gravadoras no exercício da pressão. Com o mundo cada vez mais conectado e, consequentemente, com as notícias trafegando com maior agilidade, toda notícia é sabida e rapidamente esquecida.

As grandes gravadoras necessitam que seus artistas sempre estejam nos jornais. Escândalos extra-musicais e discos forçados, fracos, feitos apenas para cumprir com o contrato, acabam por decretar o precoce fim de um conjunto. Grandes bandas, como o Coldplay, devido a artificialização do tempo criativo necessário, passam a viver de uma série de discos irregulares, que não condizem com o feito no início de sua carreira. 

Longe de todo alvoroço, o underground serve de válvula de escape para o artista seguir naturalmente sua carreira. Os efeitos positivos se fazem tão evidentes, quando vemos que, geralmente, as bandas afastadas das chamadas major labels que conseguem ter longo tempo de vida, possuem uma discografia bem mais regular do que as grandes bandas. 

É o caso do The Bellrays, juntos a mais de vinte anos, só conseguiram ter uma maior repercussão, ainda no underground, com o incrível álbum Grand Fury de 2000. Após esse, a banda caminhou por outros bons álbuns até desembocar em Black Lightning, lançado no começo desse ano.

Em seu novo álbum, os norte-americanos mantem toda a essência do grupo, apostando na fórmula que sempre mostrou dar certo: os fortes e furiosos vocais de Lisa Kekaula, que nos faz, muitas vezes, pensar ser um homem à frente do microfone, acompanhada de sua banda que passeia entre punk, hard rock e soul.

Entretanto à essência preservada, o novo álbum do quarteto traz uma sonoridade bem mais pop e radiofônica às suas canções mais roqueiras. O excesso de sujeira e vinhetas experimentais são postas de lado para uma produção bem mais hi-fi tomar conta já na faixa homônimo, que abre o disco.

Apesar das sutis modificações, mais do que necessárias de um álbum para outro, o The Bellrays produz um novo trabalho de qualidade bastante semelhante a seus antecessores, que, em sua meia hora de duração, traz faixas quase sempre incríveis e simples, excedendo energia apesar do longo tempo de carreira.          

Justice

“Audio, Video, Disco”, Justice.

Quando uma banda faz um álbum de estréia tão aclamado quanto Cross, que chegou a figurar não apenas em listas de melhores álbuns de seu ano, como também entre os melhores da década e inclusive fazendo aparição no livro 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, é difícil trazer uma continuação que agrade o público, pois esta inevitavelmente vai ser comparada com seu memorável antecessor.

O Justice poderia ter escolhido dois caminhos para seu novo trabalho: ou copiar o som que fez de seu debut um dos melhores álbuns dançantes já lançados, ou caminhar por novos pátios e trazer um som novo e renovado. O duo escolheu o mais perigoso, o segundo.

O problema não é apenas o fato dos franceses terem mudado o som, é o fato deles terem abandonado o som sujo e pesado que fazia o mais parado dos seres querer dançar; o novo lançamento não faz questão alguma de fazer com que o ouvinte se mova, com exceção de “Helix” e talvez alguns outros momentos dispersos.

O novo trabalho também alterna entre faixas instrumentais e outras com vocalistas convidados, desta vez, no entanto, com muito mais presença de vozes, apesar de geralmente constituírem um elemento secundário. As vozes podem produzir efeitos desastrosos como na tediosa e irritante “Ohio” e na cansativa e repetitiva “Audio, Vídeo, Disco”.

Mas podem também produzir efeitos positivos como no single “Civilization”, marcada por alternância entre versos calmos e um refrão explosivo, na pop “On’n’On” e em New Lands, que possui uma clara referência à For Those About To Rock do AC/DC. Aproveito para ressaltar também a clara influência do rock clássico no novo trabalho do grupo.

Se você procura por algo dançante, esqueça “Audio, Vídeo, Disco”. Se você quer algo memorável e que não seja enjoativo, pode procurar outro álbum também. Ainda sim, aqueles que guardam certo carinho pelo Justice e apesar das minhas recomendações ainda querem ouvir o novo trabalho, fiquem à vontade, existem sim bons produtos no disco

Nevilton

“De Verdade”, Nevilton.Os blogueiros já podem respirar aliviados. Após anos de expectativa, uma das bandas mais adoradas do cenário underground, finalmente, lançou seu debut. Foram inúmeros EPs realizados até chegar à peça final: o elogiadíssimo Pressuposto (2010), que muito repercutiu na mídia virtual.

O som bastante remetente ao alternativo oitenta e noventista, com certeza, foi e permanece sendo um grande fator para a considerável grande adoração à banda liderada por Nevilton de Alencar. Mas, antes de ser o que é por onde o som atira, eles são o que são pelo som em si.

Tal qualidade já foi mais que comprovada em músicas anteriormente apresentadas ao público, como “O Morno”, que, infelizmente, ficou de fora de “De Verdade”, primeiro álbum do trio.

Não que seja de todo mal uma canção previamente lançada em singles, EPs ou trilhas sonoras não constar num disco. Na verdade, os paranaenses do Nevilton pecam no excesso de músicas já conhecidas em seu debut, de modo a tornar o álbum algo próximo de uma coletânea. Das catorze músicas de “De Verdade”, apenas quatro são inéditas. 

Entretanto, assim como o não constar de uma música “x”, já conhecida e prestigiada, não faz do disco algo ruim, o constar de várias conhecidas também não. Apesar da falta de novidade, o álbum é dotado de uma visível regularidade.

Letras e músicas divertidas, vocais simples e falta de virtuosismo são marcas do conjunto sulista. Obviamente, a simplicidade não é fator limitante e nunca foi para nada. O trio Nevilton confirma tal ideia, trazendo catorze boas músicas presentes em seu primeiro álbum, “De Verdade”.

Jane’s Addiction

“The Great Escape Artist”, Jane’s Addiction.

Quando, em 1988, o Jane’s Addiction constatou no título de sua primeira obra prima que nada é chocante, os músicos realmente não faziam ideia de como seria a sonoridade do material que lançariam 23 anos depois.

É bom avisar os desinformados que a banda não viveu esses anos todos. Após terminarem em 1991 o grupo experimentou três renascimentos, cada um fazendo uma turnê com baixistas diferentes e deixando um lançamento. Em 1997 com Flea, o grupo lançou a coletânea de demos e raridades, Kettle Whistle. Em 2001 com Chris Chaney, eles lançaram o engolível Strays.

Mesmo assim, o brilho nos olhos dos fãs de Jane’s Addiction foi maior em 2008, pois fora a primeira vez que o baixista Eric Avery voltou aos palcos junto ao restante do grupo original desde 1991. No entanto, os fãs que estavam esperançosos de ouvir novo material do grupo que gravou os clássicos Nothing’s Shocking e Ritual De Lo Habitual terão que se contentar novamente com três quartos dos músicos.

Ou Avery é muito esperto e sempre sai em horas oportunas, ou o Jane’s Addiction realmente não consegue ser o mesmo sem os quatro membros que fizeram história na transição entre as décadas de 80 e 90.

O novo trabalho, The Great Escape Artist possui uma sonoridade ao menos assustadora para antigos ouvintes. O álbum é pop demais para ser gótico e gótico demais para ser pop, matou as influências do funk e trouxe músicas mais retas e previsíveis, além de também matar quase que completamente a energia que de certa forma ainda estava presente no muitas vezes genérico Strays.

Apesar de fraco, o disco não é uma grande e fétida pilha de lixo. Assim que você se acostuma, ou pelo menos aceita o novo som, três quartos do Jane’s Addiction ainda conseguem construir boas faixas como o ataque direto a Eric, “End To The Lies”, a pop “Irresistible Force” e seu refrão grudento, a pesada “Words Right Out Of My Mouth” e o grande destaque, a lenta e atmosférica “Twisted Tales”.

Perry Farrell, Dave Navarro e Stephen Perkins parecem ter medo de ser criativos aqui, apesar de ocasionais relances de originalidade no álbum, é difícil de acreditar que esses músicos também estiveram sob o cargo de composições como “Three Days”.

The Great Escape Artist é reto e às vezes tediante, não é nada memorável e nem fará um grande acréscimo na discografia da banda, mas definitivamente não é o tipo de disco que, de tão ruim que é, deixa uma mancha negra enorme no currículo da banda. É apenas bom, mas completamente ignorável ao lado de antigos lançamentos.